Spring Breakers, 13 Assassins, Hannah Arendt e One Flew Over The Cuckoo’s Nest

Inauguro essa “Categoria” do blog, que leva o titulo do site (Café e Cinema), para ser um espaço livre para pensar, comentar, criticar, analizar e associar idéias sobre o cinema e, consequentemente, a vida.

Desejo informar que esse post contém Bons Spoilers e que cai dentro do rubro “Informal”, porque, como disse acima, é um espaço livre.

Nesses últimos dias tive a oportunidade, maravilhosa, de ver filmes. Ultimamente tenho lido mais do que assistido, e quando assisto, são séries (logo vou dedicar um café sobre esse assunto maldito que funciona como um buraco negro).

Comecei assistindo Hannah Arendt:
(IMDb)

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Dirigido por Margarethe Von Trotta e lançado no ano passado, só chegou por essas bandas na metade de 2013, nos mostra o momento da vida da filósofa política Hannah Arendt em que o nazista Adolf Eichmann foi capturado e julgado por Israel. Sendo judía e sobrevivente dos campos de concentração, ela vê nesse momento uma grande oportunidade, ou melhor, pressente seu destino, em acompanhar o julgamento do nazista. Fim de sinopse. Mais café.

Através das relações de Hannah conseguimos montar um quadro de sua personalidade e de seu ambiente. É uma pessoa sociável e que preza muito os amigos. Se me lembro bem, em um diálogo, um amigo pergunta se ela amava Deus ou Israel, e ela responde que ama seus amigos e só a seus amigos.

Em seu artigo, Hannah não inocenta o nazista mas reconhece que ele apenas obedecia ordens. Era uma peça em uma máquina. Que o verdadeiro mal cometido por esse homem foi o não-pensar. Não refletir sobre seus atos e apenas obedecer à Lei, neste caso, o Führer. Também aponta a responsabilidade para os líderes judeus da época que não fizeram o melhor para o seu povo. É por e pelo seu artigo sobre o julgamento do nazista que o filme transcorre e Hannah sofre grandes perdas de amores. A conclusão de Hannah sobre o homem medíocre, que nada faz a não ser existir e cumprir suas ordens sem reflexão, esse homem coletivo e sem individualidade, está planteada* desde o início: suas amizades, que eram saudáveis, cheias de discussões construtivas, políticas e filosóficas, se transformam em intransigência, rancor e decepção.

Sua relação com seu professor (grande paixão) M. Heidegger também se vê prejudicada pela situação política da época e pelas escolhas políticas dele. Mas isso não fez com que Hannah o condenasse, ela buscou compreende-lo antes de qualquer coisa, e mesmo assim, anos depois, mantém sua foto em seu escritório.  Já seus dois grandes amigos – amores – são tão medíocres quanto o nazista, dominados por um pensamento coletivo e unilateral. Este é o grande sentimento do filme.

Hannah pensa por si e não representa nenhuma nação. Nenhum passado. Apenas o seu… e seus pensamentos.

O quadro de abertura é um establishing shot, já o final, é um suggestive one.

 

Dia seguinte, ou no mesmo dia (já não lembro tão bem) assisti Spring Breakers:
(IMDb)

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Confesso que é o primeiro filme que vejo do Harmony Korine. Confesso não ter muito a dizer sobre o filme;
O único que tenho a dizer é que ele sabe usar muito bem a imagem do ator. Ele leva aos extremos as nossas concepções “reais”, as imagens que temos dos atores e da realidade. O filme é brutalmente real, a não ser pelas quatro personagens principais. Elas começam como personagens bem reais, mas isso tende a desaparecer ao longo do filme. Diria que elas se transformam em forças da fantasia que correm livre nesse mundo “real” e extremamente banal.  O que tenta tirar o mundo de sua banalidade é o crime. É o excesso. São os valores “reais” da atualidade (o que tenta dar valor à realidade).

A morte de James Franco no final mostra o quão pouco significa sua vida. O que importa é o impulso de vivenciar o que lhe apresentar. O rush da experiência.

 

13 Assassinos:
(IMDb)

Lord-Naritsugu

Esse é do Takashi Miike e também é o primeiro que vejo desse diretor.
É um delicioso filme de ação que chega a lembrar “Os Sete Samurais“, porém sem a profundidade deste.
Quer ver um filme de ação com um plot legal e um excelente final? Pode assistir esse filme.

Porque eu escrevo sobre este filme? Por mais que seja apenas umas poucas palavras, é um filme realmente redondo – divertido, com suspense, ação, excelente produção, etc – é um filme que Hollywood não consegue produzir mais. É um desses filmes que você recomenda pra qualquer pessoa que goste de um bom filme.

Café? Yes.

Vou comparar com “Os Sete Samurais”, não por ser melhor ou pior, mas sim por mera intuição.

Em “Os Sete Samurais” o plot é simples, um grupo de camponeses descobrem que na próxima colheita uma gangue de bandidos virão a pilhar e destruir sua vila, logo, pensam que a melhor maneira de se defender é contratando samurais. Já em “Os 13 Assassinos” temos pessoas no alto escalão do Xogunato que querem evitar que um Lorde, o mal encarnado, entre no conselho do Xogum – estes também decidem chamar samurais para resolver a questão. Em ambos temos a dualidade: o bem contra o mal. No primeiro, pobres campesinos – no segundo, esse Lorde vai destruir o Japão se entrar no conselho. Os samurais são os escolhidos para solucionar o problema – tanto pela base da pirâmide, tanto pelo topo. Curiosamente no segundo filme eles são chamados de Assassinos – talvez para evitar a comparação com os Sete, talvez para constatar algo.

Em ambos acompanhamos o recrutamento, o treinamento e a espera pelo momento da decisão. Nos “Sete” eles fortificam a vila e fazem um forte dela e a defendem com suas vidas. Nos “Treze” eles pagam aos camponeses de uma vila que a abandonem e fazem dela um verdadeiro Slaughterhouse que fica no caminho do inimigo. São meras comparações de estrutura e narrativa que são significantes. Nos “Sete”, os samurais defendem a Vida. Nos “Treze”, os samurais (assassinos) atacam a Morte.

O que um filme japonês, claramente inspirado em outro clássico japonês poderia abarcar de novo nessa temática? Intuo eu que o elemento chave em “Os Sete” são os camponeses. Nos “Treze” é o vilão – Lorde Naritsugu:

É por esse vilão, a Morte em pessoa, que escolhe o caminho da guerra que me fez escrever sobre o filme. Porque esse é o elemento novo nesses filmes. É como se fosse a encarnação de um Buda Infernal. Que se delícia com a a chacina, a morte e o sofrimento. Você passa o filme inteiro imaginando uma morte que seja suficientemente cruel para um ser como ele, e o filme conseguiu isso: uma morte comum, vendo a vida escoar, o medo invadir e a mediocridade, a temporalidade, o sofrimento dominar o algoz. Ele não era nenhum Deus ou Morte encarnada, apenas um ser humano com o ego inflado. Isso me leva à Hannah Arendt e à Spring Breakers – um pelo Deus da Morte potencial na mediocridade humana e o outro pelo êxtase do momento – o dia de sua morte foi o melhor de sua vida.

Acima escrevi que o filme não tem a profundidade de “Os Sete”, mas olhando um pouco melhor, ele tem alguma profundidade sim.
Não a mesma, com certeza. Mas não é um filme superficial.
Ambos os filmes são Filmes. Claramente executados com uma paixão pelo Cinema.

 

One Flew Over The Cuckoo’s Nest:
(IMDb)

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Somente agora vi “Um Estranho no Ninho”. Todos me diziam maravilhas desse filme e sempre cultivei uma curiosidade sobre ele.
É um filme que bateu minhas expectativas de um jeito inacreditável.

Não tenho muito o que dizer, realmente, vou tentar discorrer sobre ele com apenas uma idéia na cabeça: o final.

Eu ia dizer que o filme conta a história de R.P. McMurphy desde o momento em que este entrou no manicômio até o momento em que ele saiu. A verdade é que é isso mesmo, mas que também mostra uma janela temporal daquela específica Ala do manicômio, desde o momento em que McMurphy entrou até sua eventual saída. Ambos são os protagonistas do filme. Isso é bem claro desde a primeira cena, quando vemos o ônibus surgir do nascer do sol e logo conhecemos a Ala do manicômio com seus distintos personagens.

McMurphy (Nicholson) foi preso e está no manicômio para que os doutores definam se ele tem problemas mentais ou não. Ele tem vários companheiros dementes e eventualmente agita eles, como se fosse uma brincadeira de criança. O primeiro “demente” que ele encontra é o Chefe surdo-mudo. É o seu primeiro contato com este mundo. Logo faz amizades, etc. Acompanhamos ao longo do filme o funcionamento do manicômio, aprendemos quem mandam em quem e conhecemos um pouco da doença de cada um – o suficiente para simpatizarmos com eles.

A antagonista do filme é a enfermeira Ratched. Fria e distante, cheguei a pensar que para ter convívio com tais seres, é preciso de tal postura. No começo do filme não pensei que era a antagonista, apenas a considerei como a enfermeira chefe do lugar. Mas ao longo do filme, ela vai demonstrando sua verdadeira natureza – alguém que está lá apenas pelo controle. Exemplos: McMurphy, a ponto de ser enviado para a prisão (onde ele cumpriria apenas 2 meses de detenção) ela acha melhor ele ficar, para ser “ajudado”.  McMurphy consegue a votação para assistir o mundial, e mesmo assim, ela mantém a regra que “a sessão terminou” então não valia. Assim como McMurphy testava a paciência dela, ela testava os limites dele. Ratched impunha limites e uma lógica de crime-e-castigo para os pacientes. Forçava uma “terapia” onde os problemas dos pacientes era discutido em aberto, expondo-os ao ridículo. Isso tudo é óbvio, está no filme. Só cito isso porque as circunstâncias no manicômio são limítrofes. O certo e o errado não são claros. Hora você quer que McMurphy seja pego nas suas traquinagens e hora você quer que ele seja bem-sucedido nelas. Assim como as atitudes da enfermeira Ratched: Aqui retomamos o tema de Hannah Arendt. A mediocridade do ser humano – o obediente de regras – a lógica da auto-preservação.

Isso tudo é muito bem construído. Não é uma mera exposição de uma pergunta como em Hannah Arendt – “O que você faria se fosse você?” – mas uma experiência do limiar, via simples e muito bem construída identificação. Hannah Arendt toca nisso com suas amizades, mas, ao meu ver, pobremente. Aqui é tocado realmente. O filme funciona como uma espiral e apenas no final as situações são levadas aos extremos e vemos do que são feitas as personagens. A enfermeira Ratched controlando o pobre Billy, ameaçando contar à mãe dele e assim levando-o ao suicídio. Ali, McMurphy se deu conta e não se conteve, assinando sua própria morte. – Muitos doentes estavam ali por iniciativa própria, mas parece que a enfermeira os mantinha ali, exercendo seu poder sobre eles.

Aqui chegamos ao final, onde está tudo em ordem novamente, a enfermeira controlando sua ala atrás de seu vidro e todos em seus lugares como sempre. É o paraíso restaurado. Lembrei de repente de “Salo: 120 dias de sodoma” do Pasolini – onde o Sadismo não tem fim, o sádico nunca quer chegar ao orgasmo e sim manter o seu impulso constantemente alimentado. Assim é a Ala da Enfermeira Ratched. Sádico e sem fim. Como todo “paraíso”. Sem vida e sem movimento. Mas, aí chega nosso McMurphy (nome irlandês, talvez lembrando um herói antigo?). Com duas cicatrizes na cabeça, completamente vegetal. Quem vai ao seu encontro é o seu primeiro amigo, o Chefe surdo-mudo (que apenas finge ser surdo-mudo) que tinham planejado fugirem juntos. Ele chora pelo amigo e mesmo assim leva à cabo seus planos. Ele, como um belo amigo, mata o agora-vegetal McMurphy e faz o que McMurphy tinha dito que faria para fugir: levantar um pedaço de granito enorme e pesadissimo, atirar pela janela e fugir dali. O Chefe pega esse pedaço de granito (se é que era granito) era uma fonte de agua, levanta sobre sua cabeça e destroça a janela, fugindo do manicômio. É um final excelente.

Poderia-se dizer que McMurphy e o Chefe são uma e mesma pessoa. Em um sentido mais amplo, a enfermeira também, e até todos os doentes ali dentro. O Chefe revelou apenas à McMurphy que ele podia falar e escutar. Isso não é um dado bobo pra fazer você pensar “Ahhh ha” como em “O Sexto Sentido” e sim uma dica para compreender o símbolo – que o Chefe, o selvagem, grande e forte – QUIETO – porém presente, faz parte do homem moderno. O homem moderno é agressivo, superficial e não conhece a si mesmo. À medida que ele começa a conhecer os outros ali dentro, a refletir, o Chefe ganha voz e ouvidos. Ele ganha vida e os dois começam a interagir. McMurphy teve várias chances de fugir, mas como o Chefe disse acertadamente, ele não sairia sem ele.
Com a morte de McMurphy, o chefe tira à força o controle da Fonte de Agua (um belo símbolo para o jorrar da própria vida) e quebra as paredes do manicômio. Correndo livre em direção ao por-do-sol.

No começo disse sobre os protagonistas serem O manicômio em si e o R.P. McMurphy… E realmente são.

Poderia-se dizer também que o protagonista realmente é o Herói – O sol nascente e o seu poente – fazendo do filme uma bela viagem mítica. (e moderna). E mais importante: humana.

By | 2017-01-13T21:56:11+00:00 January 4th, 2015|Resenhas|0 Comments

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