O Figo verde

Página 41, três páginas faltando para terminar o capítulo antes do ônibus passar e ter que ficar de pé, esperando o tempo passar, esperando alguém levantar – para assim poder sentar e talvez continuar a leitura.
Odeio não terminar um capítulo. O raciocínio se perde, é enfadonho… O ônibus apareceu fazendo a curva na rua. Que desgosto.

Página 50, falta pouco e nada do ônibus. Termino o capítulo e fecho o livro. Guardo-o na mochila e percebo na minha frente um Fiat Figo verde e antigo esperando o semáforo abrir. O senhor no volante me olhava com afinco… Desvio meu olhar, procuro o ônibus na curva, nada, outro lado, semáforo vermelho, para frente e o senhor ainda me olhando. Ele faz um sinal com a mão, chamando para falar com ele. As pessoas ao meu lado olharam estranhadas. Educadamente, vou até a porta do carro.

– Que livro você tava lendo?
– Que livro eu…?
– É. Que livro você tava lendo?
– É “Assim falou Zaratustra” do Nietzsche.
– Jura? Quer uma carona??
– Sério? Mas pra onde você tá indo?
– Onde você trabalha?
– No centro.
– To indo pra lá também. Entra aí!
– Licença.
– Me conta, como tá o seu livro?
– O Zaratustra?
– É! Sobre o que é?
– É sobre um profeta… Que depois de anos morar numa montanha, decide descer e ensinar aos homens seus ensinamentos.
– Jura? Que interessante.
– E é isso… Ainda to no começo do livro…
– E o que você tem achado do livro?
– Ah, é bom! Tem um estilo próprio sabe. O profeta soa como profeta.
– Ah ah ah! e como soa um profeta?
– Ah, como na bíblia né?
– Hum…
– Eles tem uma certeza que parece absoluta… Falam sem dúvidas…
– É. É verdade…
– … Mas o Zaratustra tem algo de diferente também. Quando ele fala aos outros, soa como profeta, mas quando sozinho ele fala a si mesmo com sinceridade e acho que com uma permissão de se enganar. De aceitar que se enganou, sabe?
– Isso é novo.
– É né?
– É.
– Seria uma evolução mesmo, você não acha?
– O quê?
– Que o ser humano comece a assumir seus erros. A se conhecer mais. A deixar certos egoísmos de lado…
– Com certeza…
– Você faz isso?
– Tento. Acho.
– Quando foi a última vez que você fez isso?
– Putz, não sei… Difícil de lembrar um fato específico assim… Eu gosto de pensar que sempre estou evoluindo. Que sempre estou me conhecendo mais.
– Olha, jovem, é bem fácil lembrar de um fato específico assim porque eles são únicos…
– Pode ser, mas não me vem nada à cabeça.
– E um fato onde você foi ruim..? Você lembra?
– Hmm… Sim. Hehehe.
– É?
– Sim… Mas não gostaria de falar… Mal te conheço… Sem ofensas.
– Você não me ofende… Você só demonstrou que não está lendo com cuidado… Você não está evoluindo e você não é diferente em nenhum sentido dos outros que dou uma carona…

Constrangido, me calei.

– Aqui perto tá bom, meu trabalho é ali na esquina…
– Que tenha um bom dia…

2016-01-02T18:57:29+00:00

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