Morte em Veneza

Há uma semana atrás terminei de ler Morte em Veneza do Thomas Mann.

Eu gostaria de apresentar aqui uma reflexão sobre o livro, mas a verdade é que a leitura não me atingiu as profundezas. (fora as reflexões do capítulo 2 com certeza me pegaram em cheio…) Porém, como reles mortal, para mim foi uma leitura boa e desfrutei da companhia de Gustav, Mann, Tadzio e Veneza nos dias que o li.

Mas vamos ao filme!
(Contém spoilers)

Primeiro quero dizer que, como uma adaptação, Visconti fez certas escolhas que considero exitosas. Adiciono a isso que acho que o filme é uma muito boa adaptação da literatura para o cinema.

No livro o personagem de Gustav é um escritor famoso e renomado, e no filme, um músico, igualmente famoso e renomado. Essa troca na carreira e talento do personagem pode parecer uma inversão, mas não acho que seja assim. Acredito que essa escolha teve como influência principal o próprio cinema como meio, ao invés de ser apenas uma possível melhora para a trama.
Sem querer entrar no mérito da eficácia de cada arte, acho que a música é o que melhor conduz e guia os afetos do espectador e o clima da narrativa.
O que Visconti buscou com isso (creio) foi querer transpor o que o livro nos faz sentir para a película. No livro essa busca incessante por Tadzio é muito bem pontuada e bem conduzida, e tem um suporte enorme para o leitor: o narrador onisciente. No filme, temos apenas as imagens (ainda bem!) para criar a tensão, e, last but not least, a música. Vamos conhecendo o universo Veneziano através de poucas imagens, planos sequências bem realizados e uma música no fundo que nos guia até o fim. (abro um parênteses: isso foi algo que me chamou a atenção… Porque hoje em dia temos uma liberdade enorme com o video digital que aposto que não haveria a economia de imagens e lugares que tem no filme.)

No livro, conhecemos um pouco sobre a personagem nos 2 primeiros capítulos – sua fama, seu talento, seus pensamentos e por final sua fisionomia. No filme, esses 2 primeiros capítulos estão ampliados e espalhados pelo filme em forma de flashbacks, com a livre criação de um manager (Alfred) e uma esposa. O filme, ao contrário do livro, começa com o barco chegando em Veneza… Sem nenhuma voz dizendo quem ele é, de onde vem, para onde vai, ou o que pensa. Apenas imagem e som.

Eu estranhei essa decisão no começo porque comecei a sentir falta dos personagens que apareciam no livro tão bem descritos e que causaram uma forte impressão. Mas logo, essas personagens apareceram… elas correram pela tela e foram embora. Quase imperceptíveis. Visconti guarda o “velho janota” e mantém a forte impressão da personagem. Esse velho janota é o motivo do porque o filme começa assim… Pois é a primeira grande impressão da estória: uma feiura grotesca.

O filme a partir daí segue fielmente o livro. Quase que palavra por palavra – ao que concerne os eventos exteriores. A câmera e a música apenas sugerem… E os flashbacks já citados vão lentamente dando uma base para que o espectador tenha sobre o que sugerir quais são os pensamentos e sentimentos do personagem. Para mim, isso foi audacioso e muito bem feito. Não vem de uma necessidade de contar o passado ou construir uma ponte para o presente, para que o espectador siga algum fio. Sim, como disse, para construir (creio que sugerir seria a palavra certa) a personagem e termos um mínimo de chão para nos aventurar junto à câmera.

Morte em Veneza retrata um talentoso e famoso artista, porém fisicamente desgastado, que se apaixona cegamente pela juventude e a beleza. Digo cegamente porque no barco que o levou a Veneza, Gustav se depara com o “velho janota”, um velho que se faz de jovem, que se mexe como jovem e se maquia grotescamente para ocultar sua velhice… No livro, a repulsa de Gustav se faz sentir pela descrição de seus pensamentos. No filme, o velho é, como disse acima, a primeira forte impressão… que se reproduz ao final, assim como no livro, com a transformação de Gustav no próprio “velho janota”. Esse tipo de homem que dedica sua vida à coisas espirituais e descobre a vida só no final, e com isso, a morte. A boa e velha enantiodromia.

600full-death-in-venice-screenshot (1)

Em uma Veneza empestada, Gustav, com a maquiagem derretendo, morre em uma cadeira na praia, observando Tadzio “lutar” com um jovem de cabelos escuros…

600full-death-in-venice-screenshot

 

Confesso que este post não era pra ser uma analise profunda do filme e do livro, e sim uma mera reflexão sobre os aspectos que gostei de ambos e do filme como adaptação. Aliás, também achei excelente a escolha para Tadzio:

death-in-venice-_luchino-visconti_thumb

Acima eu disse que Visconti talvez tenha trocado o talento do personagem para a música por ser mais “cinemático“, mas sabendo que o próprio Visconti era um maestro… sou inclinado a pensar que foi por pura afinidade pessoal. Porque o cinema, nesses quesitos, tem infinitas possibilidades. Fellini talvez teria transformado o personagem em um diretor? Muito possível e acredito que seria um excelente filme – apenas como um exemplo do possível uso do cinema como linguagem, ou seja, que acredito que um mestre como ambos, não baseiam suas escolhas nos limites do meio, ou o que é mais favorável… e sim na própria individualidade. O personagem de Gustav poderia continuar sendo um escritor… Mas acho que seria uma mera transposição do livro para filme.

Visconti não fez um retrato dos “sapatos” de Mann, mas os calçou.

Ler o livro e ver o filme são duas experiências bem diferentes, e recomendo os dois.

Infelizmente, o filme para mim tem mais valor como uma adaptação do que um filme em si… Porém, vale dizer que suas imagens (e sons) ficaram em mim.

2016-11-10T00:08:05+00:00

Leave A Comment