Kárhozat (Damnation)

Kárhozat (Damnation) é um filmaço. Dirigido por Bela Tarr (um diretor que sempre esteve na minha mira desde que vi The Man From London) o filme é… (não me ocorre nenhum elogio que não soe bobo mas)… o filme é genial. Se eu me atrevesse a chutar quais diretores que o influenciaram eu diria Tarkovski, Bergman e Bresson. O filme tem elementos bem típicos de cada.

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O tempo é meticulosamente medido e sentido. Você percebe isso no primeiro plano do protagonista olhando pela janela. O som, sempre diegético, compõe o ritmo interno do plano junto com a composição e movimento de câmera. O uso do branco e preto, as texturas e a luz passam a sensação de uma realidade dura e fria. É uma verdadeira lição de cinema. Os diálogos são concisos, breves e direto ao ponto: excelentes. Me fez lembrar o que um bom ator consegue expressar com bons diálogos… Por exemplo:

-Tenho pensado muito em tudo. Precisamos aprender a tomar nossas próprias decisões. Ficarei com minha família. Quero que minha filha seja diferente de nós. Ela terá uma vida diferente. Não teremos que explicar para ela.
-Deixe-me entrar!
-Vá embora!
-Por que não pode me amar?
-Eu o amo e você sabe disso.

É um filme feito conscientemente em todos os aspectos.

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Sobre o que é Kárhozat? Eu diria que é um filme sobre desintegração. Dissolução. Desolação. Você pode ler no IMDB: “É um filme sobre um homem que é apaixonado pela cantora do bar Titanik, mas ela é casada (…)” – É verdade, o filme tem uma trama óbvia como essa, mas me parece que sua função é invertida: os conflitos externos dos personagens é o que permite a desintegração acontecer. Uma inevitável sequência de eventos provocadas pelos estados anímicos das personagens. Não o contrário, onde os eventos externos determinam as personagens. O uso de movimentos de câmera fluídos e ao mesmo tempo estáticos confirmam isso. Não tem tensão interna (provindos de eventos externos). Os personagens entram e saem do quadro como se fossem nada. Os planos mantém o vazio em foco… Os personagens são passageiros.

Já sabemos desde o começo: este homem é um maldito. Está sob constante ameaça dos outros… Eles sabem que ele é maldito. Mas o dizem sem raiva e sem pressa: sem afeto. Apenas comunicam… Durante o filme todo vemos cachorros vagando pela cidade procurando o que comer. Os personagens quase que fazem o mesmo, deixando o tempo passar em bares em um estado meditabundo. O nome do bar é sugestivo: “Titanik”. Vivem uma existência quase animalesca e sem sentido. Por entre sugestões desse estilo é que penso que o filme é mais do que mostra. Dá a impressão que esconde segredos; um bom exemplo é este breve diálogo onde o personagem começa a falar sobre Maia:

-Saberemos em que nos apegar quando o mundo explodir. Boca a boca, coração a coração, estrela a estrela mas não haverá mais vergonha e o véu será retirado. Estou falando sobre o véu de Maya que cobre o cérebro e os olhos dos homens.
Além do mais, Görgey sendo um bom estrategista militar (…)

Começa no meio de uma reflexão profunda que logo desemboca em um diálogo superficial nos deixando com uma dúvida sobre nossas cabeças porque o diálogo nos leva a outro ponto e não conclui a reflexão: nos ilude como Maia. Tive que voltar e rever para entender bem. Isso nos diz sobre a dissolução. Ou seja, parafraseando o protagonista: Saberemos o que é importante quando tudo acabar, quando o superficial morrer. Um diálogo mais tarde no filme sustenta essa hipótese quando nos diz que temos que “redescobrir a vida e a beleza” e que “ninguém pode viver sem amor e decência.”

Confesso que houve um momento em que pensei que o filme ia desandar por um diálogo entre o protagonista e a amada, onde ele conta que deixou uma outra mulher que o amava se matar, por pura crueldade. Para mim foi uma curva narcisista do personagem bem estranha e franzi as sobrancelhas. Para continuar a desconfiança logo vamos para um próximo diálogo com o Dono do bar:

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-Talvez isso apenas signifique que eu desisti, que sou um covarde, um belo de um covarde. Duvido mesmo que meu destino mudará para melhor. Tudo que eu faço é escusar-me de minha covardia através da náusea.

Pensei comigo mesmo: “Por favor, não!”
Mas o Dono do Bar salva:

-Que tal pensar em outra coisa e não em você, para variar?

Nos traz de volta à realidade e põe o ego do protagonista em seu devido lugar. Em meio à tanta decadência, que bem faz suas reflexões egoistas? Muito mais em um filme! Amei essa curva. Fez uma volta inteira, demonstrando a falácia de muitos cineastas “modernos”.

Fora a dissolução, seguindo o fio de Ariadne deixado por Bela Tarr, ouso dizer que o filme também é sobre a Mulher. Temos 2 personagens femininas importantes: A amante e a senhora misteriosa. Essa 2a é a que mais me chama a atenção por apenas aparecer para alertar o personagem sobre a outra mulher e sobre suas atitudes. Ela o alerta sobre a jovem casada infiel: “Ela é um pântano sem fundo…” e em outro momento cita as <i>Sagradas Escrituras</i> para alertar o protagonista sobre ela… Mesmo assim, ele se humilha confessando nunca entender o mistério dela, sua profundidade. Ela o aceita (para depois o rejeitar). Os dois vivem nesse movimento pendular e monótono, repetitivo como o passar dos bondinhos de carvão.

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O final inevitável do filme se aproxima e uma festa acontece. A única parte do filme onde existe pessoas dançando e levemente alegres, ao som de um rock da época. Elas bebem, conversam e são “normais”. Os personagens dançam. O marido e sua mulher dançam juntinhos, sugerindo um carinho real… pelo menos uma verdadeira carência. A senhora diz finalmente ao personagem algo como “Vai lá viver, mesma que essa mulher seja ruim, esse viver (amor) vale a pena ser vivido.” Corta. A amante com o Dono do Bar em um lindo plano, onde ela chupa ele no carro…

A festa atinge seu ápice: de mãos dadas eles giram juntos para a esquerda (sugerindo mais uma vez a dissolução e ‘citando’ Bergman e Fellini sobre o mesmo tema):

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Depois apenas sobra a Senhora… Um fim de festa e de bebedeira triste e solitário. Voltamos à realidade:

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No final o protagonista conta pra policia o que os amigos fizeram de errado, e nos conta em um monólogo falso e pedante… nos mostrando sua falsidade e objetivo final: ficar com a mulher do outro. O diretor não mostra isso, porque realmente não importa… O que importa é a dissolução moral do protagonista.

A desintegração está completa: O protagonista se transforma finalmente em um cachorro.

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O final é sugestivo; escombros… chuva… barro… pedra… raízes… As imagens que estavam de fundo durante o filme todo.

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O filme acabou. Sabemos em que nos “apegar” neste final?

By | 2017-01-13T21:56:11+00:00 January 16th, 2015|Resenhas|0 Comments

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