Gone Girl

Gone Girl (Garota Exemplar) é, segundo alguns críticos, um dos filmes favoritos de 2014. Eu estou, no momento em que escrevo essa resenha, em cima do muro. Espero que escrever sobre o filme aclare um pouco para mim mesmo o que o filme significa. Recomendo essa leitura apenas a quem se interessa por cinema e suas expressões. (e, mais importante ainda, para quem já viu o filme – Contém spoilers.)

O filme começa com um plano emblemático: a cabeça da Amy e a voz em off de Nick que nos diz que adoraria abrir a cabeça de sua mulher, violentamente, para obter respostas… O que você está pensando? O que fizemos um para o outro?.. Respostas para “as perguntas primais de qualquer casamento”.

Logo, vemos planos rápidos da cidade em questão com ambientes vazios e até meio abandonados. Nessa hora, ninguém está acordado. Um detalhe interessante é o relógio que aponta 6:55. Isto é: 5 para as 7.

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“5 minutos para” indica que algo está para acontecer. Por algum motivo, nosso protagonista está acordado. Aparentemente a única alma da cidade. Logo vemos mendigos andando rua abaixo e Nick os percebe. “Manhã de 5 de julho” que é o dia depois do dia 4 de julho, dia da independência… Estamos situados no tempo; somente o que o narrador deixou que soubéssemos: o suficiente para acompanhar os eventos.

Nick sai de sua casa e vai para O Bar com um jogo debaixo dos braços chamado “Mastermind” (aliás, jogão.) e dá o jogo para sua irmã.

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No bar, eles jogam outro jogo: “Life” (O Jogo da Vida). No meio do qual Nick pergunta: “Qual é o propósito desse jogo mesmo?” (Será que a pergunta é mais profunda ou meta-linguística: Qual o propósito da vida ou Qual é o propósito desse filme?)

No meio do Jogo da Vida começa a “narrativa do diário”. Vemos como em um flashback, do nada, um diário sendo escrito e a Amy conta em off como os dois se conheceram. Brincando (Jogando), Nick adivinha o que a Amy faz. Ela escreve sobre tipos de personalidades para uma revista e ele escreve sobre dicas para homens em outra revista: Os dois são escritores…

Voltamos à “narrativa principal” e, através dos diálogos de Nick e Margo (sua irmã) sabemos que a mulher de Nick, Amy, faz jogos de busca ao tesouro no aniversário deles (o dia em questão). Podemos intuir que tudo não vai passar de um jogo, muito sério, onde se joga com a Vida, planejado pela Amy. Todas as dicas estão aí. Ou, melhor ainda, que o filme todo não passa de um jogo… Com um clima de mistério e cheio de enigmas, Fincher conduz o espectador como em um jogo onde ele é o “mestre”.

A base está sedimentada para o filme “realmente” começar: Walt, o vizinho da frente liga para Nick no bar e avisa que seu gato (ou gata) está fora da casa. Aí é que Nick descobre a “cena do crime” e o filme se desenrola.

Durante a investigação aprendemos mais e mais sobre o caráter contraditório das personagens: O diário nos conta maravilhas sobre o casal, e eventualmente sua degradação, desfavorecendo Nick. A realidade da narrativa principal, onde Nick, sua irmã e até seu Pai (que é um senil que não sabe nem quem é ele mesmo) nos diz pontualmente que Amy é uma… digamos… vaca (bitch). Mas a narrativa principal também nos dá fatos onde Nick é um exemplar babaca, sendo um marido absurdamente desatento que não sabe nada sobre a própria mulher: não sabe o que ela faz com seu tempo, se tem amigas e nem sabe seu tipo de sangue.

Chamativo é a personagem fictícia “Amazing Amy”, criada pelos pais da própria Amy cuja premissa é ser exatamente o oposto da Amy… ela teve uma infância maravilhosa e é uma personagem excepcional e adorada por todos. Isso nos diz algo sobre os pais dela… Possivelmente nos identificamos com ela porque os pais (em sua maioria) sempre tem uma infância em mente para seus filhos. Mas a dica real está aí: se o desenho é exatamente o contrário dela… o que isso nos diz da Amy real? (Bastante!)
Se me lembro bem, essa noite que o diário descreve sobre a Amazing Amy é sobre um lançamento de um livro onde a Amazing Amy se casa. Nessa noite Nick propõe para a Amy real… Nick faz convergir ficção e realidade. As duas têm algo em comum finalmente. (não acho que seja um fato importante mas o notei.)

Ao desenrolar da investigação, com a imprensa cobrindo o caso, até eles fazem o Nick parecer um charlatão. Pedem pra ele sorrir ao lado do poster de busca da mulher e ele, como um bobo, sorri. Também nos diz sobre a natureza dele: é facilmente manipulável.

Amy deixa várias pistas do jogo de aniversário… É o tema do jogo bem pontuado:

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Nick e os policiais vão indo uma atrás da outra, sempre revelando algo negativo de Nick. O jogo é um castigo para Nick: Amy quer ensinar-lhe uma lição. Mas até aqui não sabemos nada sobre Nick direito… até que percebemos que a Amy tinha alguma razão: ele traía ela com uma amante. Seu caráter fica duvidável. Principalmente porque ele faz um papel em frente à imprensa que não corresponde ao que vemos.

A polícia descobre o diário no fogão… Tudo está muito bem posicionado… Nick resolve o último enigma e descobre os itens comprados com o cartão de crédito. A narrativa do diário termina com: “Acho que ele quer me matar.” Estamos a 1 hora do filme (quase na metade) e temos essa dupla narrativa nos confundindo e dando muitas informações contraditórias. Será que ele foi incriminado ou ele que cometeu mesmo? É um clássico “whodunit?“. Até esse momento pensei comigo mesmo: “Uau, tem um Quê de Hitchcock aqui… Atores famosos, filmagem impecável e um jogo de suspense maravilhoso…” e logo “Mas… só passou 1 hora de filme… Falta outra hora e isso tá parecendo o final!” e o filme volta ao começo… Agora pelo ponto de vista da Amy. Todo o mistério é resolvido… Tudo é dado de aviãozinho na boca do espectador. Ela é uma psicopata, metódica e etc etc etc. Fez tudo perfeito… Seu motivo: “I forged the man of my dreams” – Nick ficou preguiçoso na relação… Ela quer que ele suba ao nível dela…

As narrativas se intercalam: Ela no passado e Ele no presente até que a narrativa dela se atualiza ao presente e estamos todos na mesma página…. O que esperar do filme agora? O jogo supostamente acabou. Ou pelo menos foi tirado da gente e só podemos esperar e ver o que vai acontecer. (Isso seria uma coisa ruim?..)

Acontece que Amy é roubada, seu plano é frustrado e termina sendo acolhida por um ex-amante, igualmente fácil de manipular e se esconde em sua mansão acompanhando o caso pela TV, pela opinião da mídia.

O twist final é: Nick dá uma entrevista na TV que pede o retorno dela… O que faz com que ela mate o ex-amante e volte como uma vítima de sequestro e abuso para o esposo e em frente à toda a mídia. Ela não volta porque ele pediu e sim porque ele finalmente subiu ao nível dela. Nick termina sendo um forjador de personas (máscaras) igualmente hábil que Amy. Lembrando que os dois são escritores de artigos para revistas sobre personalidades e como se vestir e etc.

Mesmo que Nick, o advogado, a policial e a irmã sabem que ela é a culpada, que é uma assassina e psicopata… As coisas terminam do jeito que Amy quer… Porque é o que a opinião pública dita. Eu ainda acredito que o Nick se redime ao terminar a última entrevista em um talk show, como um casal maravilha que vai ter filho, com uma verdade : “We are partners in crime…” – Eles se completam.

Fecha com um plano emblemático igual que ao inicial…

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Fincher, como eu disse acima, nos conduz através de um delicioso jogo. Deixa a audiência brincar com as informações que ele dá… Até a metade do filme é um mistério a ser desvendado… Na outra metade, um suspense. Assim como nos mostra o primeiro e último plano, o filme não é sobre um mistério sobre o desaparecimento de Amy e a incriminação de Nick sobre o suposto desaparecimento, nem é sobre uma psicopata que incrimina seu marido via mind games perturbados, nem sobre a opinião pública e a construção e desconstrução de heróis e vilões pela mídia. Pode-se dizer que é sobre tudo isso… Mas acho que no fundo é um filme sobre o casamento. No plano final, Nick pensa em off com a imagem de Amy: “O que você está pensando? O que fizemos uns aos outros? O que faremos?..” Essas são as perguntas primais de qualquer casamento?

Como um filme de mistério/suspense pode dizer algo sobre o casamento? Acho que realmente não diz muito mas sim faz perguntas: Você sabe realmente quem é a pessoa que está ao seu lado? Você mesmo é a pessoa que era quando se casou? Quanto um influencia o outro nesse “jogo”? É um lugar comum dizer que, em um casamento, os cônjuges manipulam um ao outro… Que a imagem do casal, para a sociedade é uma máscara… Que de verdade não se conhecem… Que com o tempo se desgasta… etc. O filme usa esse pretexto e o potencializa para ser um fantástico e excelente filme de Hollywood. Um detalhe que pode parecer sem importância é que Nick ia pedir o divórcio a Amy. Levando isso em conta… O que Amy realmente termina fazendo, de uma maneira doentia, é salvar o casamento. Afinal, quem nunca escutou alguma história de algum casal que, a ponto de terminar, um deles foge de casa e termina com o outro pedindo sua volta?

Acredito que os planos do início e do final sugerem que o casamento é um processo de transformação, onde mesmo apesar de uma grande aventura e as coisas parecem terem voltado ao começo, houve uma transformação: a própria experiência.

Me limitei apenas à Gone Girl porque esse não é um post sobre Fincher e sua obra. Vale ressaltar que Gone Girl faz parte de seus filmes sobre a natureza sombria do ser humano. Amy é a personagem que pressiona o outro para que se transforme, para ser como ela ou que tenha seu “nível”… Assim como em Se7en e em Fight Club. Sempre procurando quebrar os limites do outro, transformando-o em algo que não parecia ser possível, mas que, em termos de história, termina sendo incrivelmente verossímil.

E, para incitar a reflexão e terminar esse post: O que importa tudo isso?.. Ou parafraseando Nick: Qual é o propósito desse jogo? Eu me inclino a pensar que o propósito seja Brincar… e sua possível chance de incitar a reflexão…

PS: Mas, eu me pergunto, no universo de Fincher, qual é o jogo que estamos jogando?.. Nada mais nada menos que o Poder. (vide House of Cards)

2017-09-08T18:27:43+00:00

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