Exodus & Moses und Aron

Posso com tranquilidade etiquetar o Exodus de Riddley Scott como um dos piores filmes que já vi. Já “Moses und Aron” é, ao meu ver, uma obra que vale a pena ver e pensar (e conversar).

Aqui Moisés é um general do Egito e considera todo tipo de crença como algo supérfluo e para supersticiosos… Algo que é altamente improvável para a época. O personagem bíblico é contaminado por nossa atmosfera pós-moderna de um jeito, que eu pessoalmente considero, inadmissível. Não se trata de uma livre adaptação de um livro. O filme se propõe a recriar a época com toda a pompa de um jeito que só Hollywood consegue fazer, então os personagens pelo menos poderiam ter algo da mentalidade da época, no mínimo. O fato de Christian Bale fazer Moysés não me incomoda muito porque esse é o Hollywood Way e não poderíamos, infelizmente, esperar nada menos que isso. (Aliás, Sigourney Weaver?!?!?!)

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Me estranha que isso é mais chamativo que a figuração de Deus como um menino mimado!

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Quando no livro do Êxodo não temos absolutamente nada disso. Deus é invisível e todo-poderoso. Sua única representação são as tábuas da lei… Coisa que no filme é um detalhe bobo… Uma cena preguiçosa. Javé é, neste livro, um Deus novo! Pelo menos esquecido, visto que o povo pede para Aarão seus velhos ídolos quando se sentiram abandonados por Moisés…

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Cri cri…

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Javé é o Deus que aparece para salvar o povo. Ele não era o Deus dos Judeus até então. Um Deus invisível e irrepresentável. Ramsés também, poderia ser trocado por um CEO blasé de uma mega-corporação.

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As pragas então… Começam de um jeito misterioso e que ainda tem uma leve brecha para uma interpretação racional e causal. Coisa que o sacerdote do faraó tenta fazer… Mas isso não se sustenta e a idéia é abandonada e se entregam para onipotência do menino irritado para poder continuar o filme de uma vez. Sinto que o roteirista e o diretor estavam de saco cheio.

O diretor se propõe a fazer uma ilustração do livro com todos os efeitos especiais possíveis que Hollywood pode dar e termina com uma caricatura do próprio estilo. Resumindo: o filme todo é inverossímil.

vlcsnap-2015-03-04-10h14m51s197(Holy shit!)

Há quem considere que o livro da Bíblia também o seja – nossa mentalidade atual não consegue mais acreditar em qualquer coisa da Bíblia como factual e não posso estar mais de acordo – mas o livro exige e merece uma interpretação de texto e ser considerado como mitologia… Que é exatamente o que é… E não um livro de história (apesar de histórico). O livro pode ser adaptado de várias maneiras, e assim foi feito até hoje, na breve existência do cinema… E normalmente eu respeito muito a visão do diretor sobre o como ele quis contar tal história. Mas essa é realmente impossível.
Por favor, não me entenda mal sobre os diferentes pontos de vistas que um artista possa nos dar sobre qualquer livro da Bíblia. É algo que considero muito saudável. Compare Life of Brian do Monty Python. É uma sátira que joga luz nova em todo o pensar sobre os fatos considerados históricos da bíblia.

O que é extremamente diferente de querer ilustrar e deturpar, como um drama. O que me irritou é que o filme não trás luz nenhuma sobre o livro, sua mitologia e sua essência. Na realidade, o joga de volta às trevas, dotando os personagens de uma época remota com nossa psicologia. Os motivos dos personagens são nossos, atuais… Coisa que você pode pensar “Uh, então é uma coisa boa, posso me identificar com eles!” – Sim, completamente comercial… Quando é muito mais iluminador tentarmos sondar a psicologia da época, coisa que pode nos revelar muito mais coisas sobre a nossa atual. Coisa que, querendo ou não, com um diretor desse calibre, poderíamos esperar tal coisa. Não?

Thomas Mann também adaptou a história do Êxodo em um livro chamado “As Tábuas da Lei“. Neste livro sim a psicologia da época é sondada, e de uma maneira incrível. É uma interpretação completamente verossímil, onde você realmente pode imaginar as coisas acontecendo e o modo que o povo interpretava os fatos e criava suas lendas. Enfim, o livro, que é lindo e recomendo para os interessados, é revelador. Ao contrário deste filme.

Outro filme que quero falar aqui também é uma adaptação do livro do Êxodo e se chama “Moses und Aron“, dirigido por Danièle Huillet & Jean-Marie Straub. Achei o filme muito interessante. Não é o tipo de prato que eu normalmente gosto, mas é excelente. Na verdade o filme é uma transposição para o cinema da ópera de Arnold Schoenberg. Eu nunca vi a ópera, mas imagino que tenha sido realizada de mil e uma maneiras nos teatros e óperas.

Vou escrever apenas sobre o que vi e ouvi na telinha.

O filme começa assim:

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Lemos ali o Êxodo 32:26

“26 Moisés ficou de pé no meio do acampamento e exclamou: “Quem for de Yahweh venha até mim!” Todos os filhos de Levi reuniram-se em torno dele.
27 Então ele proclamou: “Assim diz o SENHOR,Yahweh, o Deus de Israel: ‘Agarre cada um de vós sua própria espada, percorra o acampamento todo, de tenda em tenda, e mate seu irmão, seu parente, seu amigo e seu vizinho!’”
28 Os filhos de Levi fizeram tudo segundo a palavra de ordem proferida por Moisés, e naquele dia morreram mais de três mil homens do povo.”

Isso já nos põe de cabelo em pé com a idéia de um Deus tão terrível.

O plot do filme (da ópera) pode ser lido aqui, e é bem fiel à ela. É dividido em 3 atos e o 3o permanece inacabado pelo autor.

1o ato:
Começamos com o topo da cabeça de Moisés (isso sim é um Moisés, digamos de passagem).

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O plano é longo e aqui Deus é um coro! O filme começa com o diálogo de Moisés com Deus (gênio!) e a missão de Moisés é comunicar a Aron que ele é sua voz. Deus fala através de Moisés, e Moisés através de Aron. Eles dialogam (cantam) sobre a essência de Deus, fazendo-nos partícipes de seu raciocínio. Agora, os dois devem convencer seu povo a aceitar esse Deus, que como disse acima, não é o do povo judeu no momento. Eles realizam milagres! Não para o faraó e sim para o povo! Essa é uma releitura digna de nota.

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2o ato:
Uma vez convencidos no 1o ato, nos encontramos já fora do Egito e o povo está no deserto.

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Notinha do autor; eu prefiro mil vezes esse Egito acima que o de baixo:

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Moisés está na montanha por 40 dias e ainda não desceu. O povo vai ao desespero e querem seus velhos deuses de volta.

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Somos testemunhas de um belo clamor por seus velhos deuses e como eles funcionam para o povo! É uma idéia ousadíssima dos autores! Aqui Deus é destronado e o Aron concebe o ídolo de ouro que eles podem ver e projetar todas suas coisas neles. No 1o ato somos convencidos da necessidade desse Deus milagrosos que vai nos salvar da escravidão e nesse 2o ato somos devolvidos à psicologia do povo. O povo é permitido ser eles mesmos e adorarem o que eles realmente adoram.

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Moisés desce da montanha e entra em conflito com Aron, com um diálogo delicioso.

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3o ato:
Aron é preso e Moisés o repreende sobre o que ele fez. Diz que ele não vai ser condenado à morte e sim à vida no deserto. Olha o que ele lhe diz:

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O filme é puro estilo. Longos planos-sequências. Ritmos lentos. Diálogos incrivelmente diretos e sintetizados. O filme faz com que transcendemos o mero observar. Acompanhamos a história e os raciocínios dos personagens desenvolver com interesse. Estamos conectados diretamente à idéia, através de uma forma, a uma primeira vista, simples. Isso é o que considero importante. Não a ilustração da história. Sim um foco no específico. O filme é sobre a imposição de um novo Deus. Esse Deus é pura idéia, invisível e onipresente, e os outros deuses são imagens. Um é atemporal e os outros temporais. O filme é sobre uma mudança poderosa da psicologia do povo. Do surgimento da abstração. Não mais dependemos das imagens, diz esse Deus. Mas o povo é contrário…

É um questionamento muito profundo… É uma pergunta de cunho filosófico.

No contexto desse post, poderia ser Moisés como Straub & Huillet que prenderam Aron (Riddley Scott) e o condenaram por um filme tão bobo.

Eis a diferença entre os dois. São realmente opostos. Sendo honesto comigo mesmo, considero um caminho muito frouxo e o outro rigoroso demais… Porém, lendo no Wikipedia como o autor da Ópera deixou o 3o ato: “Por representar a natureza de Deus de uma forma errônea, Moisés diz que Aron está levando o povo de volta à barbárie.”

Concordo que a abstração é um dom do intelecto mas não somos pura razão… Também somos imagens e ansiamos por elas, queiramos ou não.

Será que as coisas são tão preto e branco? Não será possível um caminho intermediário?

By | 2017-01-13T21:56:11+00:00 March 6th, 2015|Resenhas|0 Comments

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