Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Birdman! Quem não viu o filme, se abstenha desse post porque está repleto de spoilers (vou por um aviso no site logo ao invés de introduzir todos os filmes com um aviso).

Comecei a escrever esse post antes da noite do Oscars. Birdman ganhou 4, incluindo o de melhor filme e melhor direção. Até onde posso lembrar, é a primeira vez na vida que estou de acordo com o prêmio.

Ao que interessa:

Primeiro de tudo. Um filme em um plano sequencia, com lapsos de tempo contidos no mesmo plano, não é novidade. Dos que vêm à cabeça Arca Russa, do Sokurov, já o superou 12 anos antes e até mesmo o recente Anna Karenina fez lapsos temporais no mesmo estilo. Mas são filmes diferentes, claro. Só queria ressaltar que o comentário “Entendo que ganhou porque é super inovador” é inválido. Porém, a técnica de Birdman é realmente incrível. Lindo.

Os títulos, logo no começo, me pareceu misterioso. Aparecem fragmentados. Como em um jogo de forca, aparecem apenas uma letra que está em todas as palavras da frase completa. Uma bateria, aparentemente improvisada, como descobrimos no final do filme, de desfile de rua marca a entrada e saída das letras e palavras. O que isso sugere?.. Um diálogo surge em forma de título:

Nos pergunta:
– Do mesmo, você conseguiu o que você queria desta vida?
– Eu consegui.
– E o que você queria?
– Chamar a mim mesmo de amado, sentir eu mesmo que sou amado na terra.

(Raymond Carver, Late Fragment)

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Descobrimos depois que esse texto é do autor da peça que nosso protagonista estará criando.

Vou tentar ser o mais sucinto possível… Como esse post é destinado a quem viu o filme, acredito que posso evitar uma analise cena a cena.

A sinopse do IMDB diz: Um ator esquecido, que uma vez interpretou um icônico herói, batalha com seu ego e tenta recuperar sua família, sua carreira e ele mesmo nos dias anteriores à estréia de sua peça na Broadway.

Birdman é um “stream of consciousness” – a saber, da consciência de Riggan Thomson e um pouco das dos que o rodeiam, pois a câmera uma hora ou outra abandona nosso protagonista e acompanha outros personagens. O que quero dizer sobre esse “fluxo de consciência” é que é assim que a câmera funciona no filme. Ela discrimina e seleciona os eventos no espaço e no tempo que lhe interessam… Lhe interessa exatamente seu título: Birdman (e a peça). A câmera mistura realidade, fantasia e imaginação. Dizer “fantasia” pode soar mórbido ou apenas indicar elementos fantásticos. No entanto, se pensarmos que estamos acompanhando esse Flow da consciência e assumirmos sua criatividade, então o plano sequência e toda a engenhosidade do filme tem um Belo de um porquê, de um ou vários sentidos. Assim sendo, a palavra imaginação é mais adequada, por ser uma ação criadora. Mas, de fato a câmera nos mostra a fantasia do protagonista (deixando-nos na dúvida se seus “poderes de super-herói” são reais ou não). Como todo “sentido” das coisas, tudo isso pode ser muito bem jogado fora como um “presente” que não serve ou não interessa para algumas pessoas. Como alguns amigos disseram: “Parece que o diretor quis apenas se exibir.” – Acredito que meus amigos erraram, e feio. Não vejo outra maneira, ou melhor, não vejo uma melhor maneira de contar/mostrar essa história do que com um plano sequencia como o diretor fez. Foi a melhor de todas as escolhas e foi feito com uma maestria foderosa.

Objetividade/Subjetividade é a ambiguidade que se desdobra pelo filme todo até o seu final. A suposta telecinésia do protagonista é um reflexo dessa expressão. Como na cena em que ele está com o primeiro ator e a luz cai na cabeça dele por vontade dele – mas acredito que o que importa é que o ator, que atrapalhava o desenvolvimento da peça, saiu dela. Sua fantasia pode ser vista como um lapso no tempo figurado. Ele podia apenas demitir o ator, e pronto. Em outra cena, contrapondo a realidade de suas fantasias, onde o ator tem um acesso de raiva e começa a destruir sua sala com seus poderes mentais e o seu advogado/manager entra no quarto e vemos o ator destruindo as coisas com suas mãos, sugerindo que seus poderes é apenas em sua cabeça e na realidade não o é. Também a cena do vôo em NY termina com ele pousando às portas do teatro… e logo um taxista corre atrás dele dizendo que ele não pagou. O filme realmente luta por um criar sentido, e essa ambiguidade faz parte de tudo isso e não tem como não fazer parte de toda a estrutura do filme. Assim como Thomson/Birdman são partes de um só ser: “It’s always WE brother. Without me there’s only you!” e “I’m not a mental formation… I’m you asshole!” – A dualidade Ator/Personagem é questionado em Thomsom com Birdman e com o personagem de Edward Norton, um ator que tenta insuflar vida aos seus personagens do jeito mais realista possível (tem ereções, bebe álcool de verdade, etc), mas isso não significa que seja um artista autêntico. Pode ser um poser – ou não. O que importa é que ele contribui para a evolução da peça… Ele é como a bateria improvisando no começo do filme, trazendo as letras à superfície. Ele traz mais ambiguidade para a peça. Mais tensão. E é o que o protagonista precisa para sua criação – sua obra. Assim como as dualidades Artista/Celebridade, Teatro/Cinema, Arte/Vida também estão em constante tensão durante o filme todo, contribuindo ao seu clímax.

Uma sugestão que gosto muito é a de que uma obra de teatro/arte é viva e dinâmica. Isso está presente desde o começo do filme. A peça não está escrita em pedra e em todos os ensaios algo muda. Até a premiere da peça, ela já passou por inúmeras mudanças e sua forma final culmina no final do filme: um verdadeiro sacrifício sangrento – vivo.

Os diálogos do filme são sugestivos… Sugerem os humores e a própria psicologia de cada personagem. Não importa tanto as informações, não estão preocupados em que tenhamos em mãos toda a história de cada um, nem seus planos futuros. Os personagens são mais vivos no que fazem e não no que fizeram. Logo no começo do filme, sabemos que Riggan tem um caso com uma atriz e ela lhe diz que estava grávida… Perto do final ela diz que não estava grávida… e tratam isso como se fosse nada. Eles são atores que estão mais vivos no palco do que fora dele… Quando ele sai na rua, um ator/mendigo recita Macbeth e resume bem essa situação.

Genial é o diálogo entre a personagem da Crítica que quer destruir ele não pela peça e sim pelo que ele representa. Como ela diz: Ele não é um ator. Não é um artista. É uma celebridade… que “hands each other prizes for cartoons and pornography.” (Depois desse Oscar… o que dizer?) Ele rebate: “Pra você é tudo etiqueta. Não analisa. É preguiçosa. you are a lazy fucker. You can see this thing without a label. Crappy opinions… You don’t risk nothing. I’m a FUCking actor! This play cost me everything.” – Aumenta consideravelmente a tensão dos opostos e põe em evidência a própria natureza do filme com o cenário da indústria cinematográfica; Suas estrelas, seus prêmios e suas supostas metas finais: fama e dinheiro.

Mas acredito que o tema que permeia o filme não é, como diz a sinopse, uma batalha contra o ego ou etc. O filme é sobre o amor. Fora a sequencia de títulos, onde temos aquele diálogo de sentir-se amado… e este frame, também:

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O amor, no filme, é a força que motiva o ator, Riggan Thomson a seguir adiante. A arriscar tudo que tem por algo que sente em seu interior. Ele sente que consegue realizar essa peça de teatro intitulada “Sobre o que falamos quando falamos de amor?”. Mesmo que todos digam o contrário, que não faz sentido fazer uma peça baseada em um texto antigo, de uma época machista e etc… Ele continua até o fim, arriscando tudo o que tem. O amor é apenas algo sugerido no filme – mesmo que esteja plasticamente explícito – que está por atrás da criação do protagonista. Depois de tanta tensão, de confrontos, dilemas, lutas e dúvidas, temos um momento com a ex-mulher de confissão e abertura… Onde ele diz algo sobre o ato de registrar, que ele queria não ter gravado o nascimento da filha e sim ter estado presente. É um alívio para ele essa confissão. Nós como espectadores temos um lampejo de sua humanidade… e respiramos juntos. Toda a tensão que estivemos presenciando resulta nessa confissão: Quero estar presente. Quero vivenciar o momento. Na verdade a tensão só se dissipa com o tiro final – um vivenciar levado ao extremo – em nome da arte. E é aqui que temos um Corte e o plano sequencia termina. A tensão se dissipou. O impulso acabou. O flow chegou ao fim.

Um cometa atravessando o céu. Uma bateria de desfile de rua no palco do teatro com um Spiderman. Quarto do motel da peça. Camarim. Homens fantasiados de personagens de filmes famosos. Lulas gigantes mortas na praia…

Corta. Estamos no hospital e ele está vivo. Agora tem um nariz novo… e sua peça recebeu uma excelente crítica. O título da crítica é o subtítulo do filme: A inesperada virtude da ignorância. A ignorância, antes uma falha, é transformada em virtude. Ele ignorou sua própria mediocridade… Além de todos os alertas de fracasso. E é uma excelente resenha… Onde ele agora é o inventor de uma nova tendência no teatro: Super-realismo.
A ex-mulher protesta: “He shot his nose of his face!”
Seu manager responde: “He’s got a new nose!! If he doesn’t like it we can get him a new one.” Como se perder um nariz fosse nada…

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Mesmo assim, Riggan não se importa com a crítica… O que importa é o como ele sente esse mundo novo. Parece que ele acordou de um pesadelo e em um mundo novo. Onde tudo é novo. Até seu rosto é novo e ele o observa com fascínio. Seu ato final faz com que Birdman, seu outro eu, se integre à sua consciência. Agora sim, ele e Birdman são um. Até é sugerido pela gaze em seu rosto…

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Qual é a arte, então, pela qual o protagonista arriscou tudo?! Ele é uma celebridade, porque ele quer fazer uma peça de teatro? Porque ele arriscou tudo por isso? Se ele poderia fazer uma sequencia de Birdman e continuar com sua fama… Ele arriscou tudo pela arte! E não o Teatro… Sim a arte! Não o artifício. Ele não se importa com as críticas e nem nada. Mas sim acorda renovado. Agora artista e sua obra são um só também.

Ele é o resultado de todo o filme.

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Lembrando que o cometa aparece no começo do filme também, não lembro se as lulas gigantes também – O que nos dá a idéia de um ciclo. Que pode se repetir várias vezes… Como um artista cria diferentes obras. Assim o homem, ou pelo menos sua consciência, também renasce várias vezes durante uma vida.

Me perguntaram o que eu achava se ele voou de verdade ou não no final. Eu respondi e sustento que isso não importa, como nos exemplos que citei acima. De qualquer maneira, ganhou “asas”, renasceu, e assim reforçando a idéia da integração do Birdman em sua consciência. É livre. Na morte ou na vida.

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Enfim, como diz a plaquinha no seu camarim: “A thing is a thing. Not what is said of that thing.”

 

(PS: achei desnecessário citar a conexão com a realidade: Batman/Michael Keaton.)

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5 Comments

  1. Victor Meira February 25, 2015 at 12:56 pm - Reply

    Mano, acho que vc superestimou o filme. Ele é bem feito, bem executado, mas é isso: é um filme sobre provar pra si mesmo seu próprio valor como artista. Se sentir realizado como “verdadeiro artista”, na pele de quem já sabe que o sucesso comercial é raso e sem plenitude, unfulfilling…

    Não sei. Não me pegou fundo não… lá in the guts… Achei um bom filme, mas um pouco morno inteiro.

    A direção, os planos, as brincadeiras com a fantasia dele, tudo isso é lindo, mas não sustenta.

    Acho que esse foi um dos anos mais fracos de Oscar… Birdman ganhou por falta de bons competidores… Ano passado o Oscar tava mais interessante….

    Ainda quero ver Whiplash, Interstellar e Still Alice.

  2. Aron M. Aguiar February 25, 2015 at 1:09 pm - Reply

    Tenho que discordar com você. Acredito que eu me expliquei acima mas talvez falhei. Acredito também que de fato o filme tem muitas facetas. O aspecto que sublinhei e que senti correr pelo filme todo é o amor. O amor que te move a se auto-realizar, contra todas as expectativas. É aquilo que ele sente nas entranhas, como ele disse no filme.
    Não consigo conceber o filme como você o fez. Não acredito que seja por se sentir realizado como verdadeiro artista, como eu escrevi no post, e sim sobre se realizar como ser humano.
    Também não acho que a direção, os planos e as brincadeiras estejam para sustentar. Eles são o próprio coração do filme.

    Engraçado é que se você estivesse comentando sobre Whiplash, eu estaria de acordo. Mas você não o viu. xD

  3. Victor Meira February 25, 2015 at 1:33 pm - Reply

    É, pelo que ouvi de comentários, Whiplash tem isso, da busca pela excelência como artista. Mas pelo que saquei (sem assistir), o protagonista busca ser o melhor baterista, meio como um campeão olímpico. Não é exatamente uma busca profunda e pessoal. Mas quero ver o filme pra opinar.

    Sobre o Birdman, acho ele mono-faceta mesmo, velho. Dá brisar em outras interpretações, como dá pra brisar em qualquer coisa. Mas o lance de sentir correr amor, do filme ser sobre o amor que te move a se auto-realizar? Não consigo ver dessa forma.

    O protagonista é alguém atormentado por esse demônio do sucesso comercial. Passou anos e anos se sentido raso, incompleto, marcado, odiando progressivamente suas realizações prévias e a fama que fazia ele se sentir enlatado, um produto raso, uma brincadeira. Ele tanto se sente assim que fantasia ser o próprio birdman, com os superpoderes e tal (mostrando que ele se entende como essa caricatura da fama dele). A partir disso ele se propõe a virar a mesa e provar pra si mesmo que ele é um artista de verdade, e não um atorzinho de um filme besta de super-herói. E aí vai e escreve um drama, uma peça de arte de caráter mais profundo, realista e poético. E se dispõe aos limites do sacrifício do artista (o tiro no nariz sendo a figura desse sacrifício), pisando nas boundaries entre a arte e a realidade (terreno bem familiar pra ele, como o filme todo mostrou). E dá certo e ele fica feliz. Se sente realizado, pleno. E concordo contigo: o demônio se mescla a ele, perdendo o caráter demoníaco. Ou seja, “ter sido o birdman” passa a não ser mais uma ameaça pra ele. Ele consegue conviver com isso de boa agora.

    Então sei lá. Pra mim não é sobre amor. É sobre isso. Realizar algo maior e mais profundo na vida, que te livre de fantasmas do passado (ou faça você conviver com eles com tranquilidade, sem que sejam ameaças). Dá pra chamar isso de amor? Se sim, então fmz, é sobre amor, hehe.

  4. Aron M. Aguiar February 25, 2015 at 2:05 pm - Reply

    Aí realmente discordamos fortemente. Se tem uma coisa que esse filme não é seria mono-facetado. E também não acredito que ser sobre o amor seja meramente uma brisa.. Expus acima as dicas do diretor, e tanto como a peça que ele realiza é sobre o amor. Também não acredito que quis dizer que “Realizar algo maior e mais profundo na vida, que te livre de fantasmas do passado (ou faça você conviver com eles com tranquilidade, sem que sejam ameaças).” signifique amor. Sim, (neste filme) o amor seria como uma força que conduz para a auto-realização. É o tema da peça que ele tanto quer realizar. Se ele tivesse planejado aquilo, de brincar com os os limites da realidade e se dispor “aos limites do sacrifício do artista” e isso fosse algo premeditado, ou se tivéssemos alguma dica disso… ai eu concordaria com você. Pelo contrário, vemos isso muito mais em outros atores da peça do que nele.

    Ainda que você tenha concordado que o “demônio” se mesclou a ele, eu discordo com sua conclusão. Porque senão estaríamos falando apenas do Michael Keaton e do Batman… e acho que, pensando bem, também estamos falando deles… Mas acho que essa é a beleza do filme… Acredito que o filme é tão rico que temos muito material a ser explorado. E é nisso que discordo, como disse acima.

    Mas… acho que nossas diferenças de interpretação é uma diferença de temperamento.

    Sendo assim… tenho a sensação que você vai amar Whiplash. (não que seja algo ruim)

  5. Adam May 15, 2015 at 5:26 pm - Reply

    Acho que vocês tem que é concordar em discordar. Buscamos coisas diferentes e o analítico tem seus limites. Ninguém é 100% analítico. E até ouso afirmar que ninguém ninguém ninguém consegue ser nem 70% analítico.

    Acho sua análise super interessante Mano. E ela me compele mais. Achei sua análise bem rasa Vitão. Acho que você deveria assistir o filme novamente! O filme é, na minha opinião pessoal, um dos melhores filmes feitos em muito tempo.

    Pessoalmente falando, pra mim não é sobre amor e muito menos sobre provar pra si mesmo seu próprio valor como artista.

    Pra mim é sobre uma peça que vai estrear, mas o filme mergulha com uma lindeza e força em várias investigações sobre o comportamento do ser humano.

    Acho que falar mono-facetado é bem complicado. Definitivamente merece voltar a fita, ir da um cagão, tomar um banho e da play de novo porque o filme é foda!

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