Au Hazard Balthazar

Eita filme bom! Não sei se tenho muito a dizer. Vou escrever livremente sobre o filme… e veremos o que terei dito.

Au Hazard Balthazar é, primeiro de tudo, um filmão.
O filme nos mostra o passar do tempo da vida de Balthazar, o burro. Balthazar nasce e logo é acolhido por um fazendeiro a pedido de sua filha. Essa menina se chama Marie e no momento está apaixonada por outro menino, chamado Jacques. É um começo digno de uma infância: idílico e bonito. Quase paradisíaco – os meninos até o batizam em um ritual católico.

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Logo os anos se passam através de uma sequência de imagens onde Balthazar passa de dono a dono, crescendo, apanhando e trabalhando como burro de carga. Até que um dia ele corre demais, causando um acidente e ele foge… de volta para a casa de Marie.

Conhecemos um pouco da vida deles. Marie, agora uma rapariga, é cobiçada por um jovem, metido a motoqueiro e mau. Logo a câmera nos mostra seu outro lado e falso: ele também canta no coro da igreja. O filme está permeado por essas dualidades. Sempre colocando em evidência seus opostos. Velho/Novo. Antigo/Moderno. Burro/Moto. Homem/Mulher… A trama avança e Marie se deprime porque sujam o nome de seu pai. Balthazar é novamente passado adiante. Este termina nas mãos de Gérard (o rapaz durão – só agora, aos 30 minutos do filme é que aprendemos seu nome), que o maltrata quando não faz o que ele quer. Até na cena do jardim, quando Marie o recusa, ele desconta sua raiva em Balthazar. Gérard é um tipo de entregador de pães… e usa Balthazar para isso. (uma analogia da missa católica?)

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Gérard e Marie começam um caso amoroso… Que nenhuma das famílias quer que aconteça… Gérard é de repente procurado pela polícia. Não era ele quem buscavam. Estão atrás de um assassino. Gérard e sua patota vão atrás de um homem que deu um depoimento antes deles. Ele sabe que ele que cometeu o assassinato. O homem, um vagabundo chamado Arnold, diz não lembrar de nada. Batem nele. Marie aparece na cena… Gérard vai até ela e ela o chama de covarde. Marie dá um tapa nele. Ele nela… E voltam a ser amantes por várias temporadas, em outra passagem de tempo cinematográfica: de fora da cabana onde eles se encontram o clima muda várias vezes. Deixado de fora, Balthazar adoece… A solução mágica é matá-lo. Mas Arnold, o vagabundo, aparece e diz que o leva com ele. Balthazar é curado… Temos a sensação que Arnold é um bom homem. Ele jura não tomar mais uma gota de álcool para no próximo plano já estar bêbado em um bar… e violento. Bate nos seus burros por pura estupidez.

Uma das coisas que mais gosto é o contra-ponto da câmera na história. A câmera/narrador contradiz o que os personagens dizem ou querem. Acima citei um exemplo… Também, no começo, a menina pede para o pai que eles possam ficar com Balthazar. O pai diz Não. Corta. Mostra eles indo embora juntos com Balthazar. É um jeito de dizer que a palavra não tem peso no curso da história, realmente. Percebemos isso pelo próprio estilo do filme. As palavras funcionam mais como guias ou títulos do que partes de frases que formam sentido para nos informar algo. Sinto-as como palavras-chave realçadas por um marca-texto. São pistas… Outro exemplo é na cena onde vemos Gérard e um amigo invadindo o jardim de Marie e diz algo como “Na mitologia…” e nada mais. Não termina seu raciocínio mas nos indica a lógica interna do filme. Nos indica que a relação de ambos é enraízada em uma trama mitológica. Isso, e apenas isso, já aprofunda os sentidos, em potência, do filme. Sem colocar um ponto final em nada. Como em um sonho… Sugere.

Balthazar foge de Arnold e termina em um circo… Onde uma cena linda acontece: Balthazar cruza vários animais enjaulados e Bresson nos mostra seus olhares. Suas conexões. Como disse acima, não nos diz nada concreto… Mas sugere um mundo de sentidos… e sensações. Aliás, o filme todo é assim. As conexões se dão por planos fechados. Primeiros planos. É lindo. Os olhares. Os gestos. Tudo acentuado… Tudo conta algo.

Enfim…
Arnold aparece no show e estraga tudo para Balthazar. Este é levado embora. Gérard depois encontra Arnold e lhe dá uma arma porque a polícia está chegando, para que se defenda. Mas tudo como uma grande brincadeira, pois a arma não está carregada e só armou tudo isso para seu próprio divertimento. Arnold é preso… Para logo ser solto e ser rico! Uma grande herança foi deixada para ele. Há uma grande festa. Onde incomodam Balthazar, amarrado do lado de fora, estourando bombinhas perto dele. A mãe de Marie aparece para salvar a filha, mas Marie não a escuta e até diz que seguiria Gérard até o fim do mundo. Gérard por sua vez, começa a quebrar todo o bar. A festa não para. Marie logo é recusada por Gérard… A festa acaba. Pagam o dono pela bagunça. Os rapazes montam Arnold em Balthazar… depois de uns passos Arnold se despede do poste ao alto e ao chão abaixo e cai de cima de Balthazar e morre.

Balthazar é leiloado em um mercado e um homem rico e escroto compra ele (o mesmo senhor que quis dançar com Marie na festa da noite anterior). Um sádico que maltrata Balthazar sem motivos. Até deixa de dar comida e água para ele…
Em uma noite chuvosa Marie foge de casa e termina na fazenda dele. Até oferece um beijo para o velho nojento em troca de ajuda. Achei essa cena uma das melhores do filme. É um encontro mitológico. Da mulher e o dragão (este velho é um ganancioso que só confia no que tem. no que guarda.) – Ele paga ela por sexo… Ela recusa o dinheiro, dizendo que quer um amigo. Ele oferece isso… Abraça ela…

Os pais de Marie vem buscar ela e agradecem ao velho a ajuda. Este até devolve Balthazar para eles. Até cheguei a duvidar da natureza desse senhor nesse momento. Não parecia tão mau… Marie volta a estar com Jacques, o menino do começo, no mesmo local falam de terem crescidos e da realidade… Da diferença daquele momento idílico e o atual. Ela mudou… Ele nem tanto. Decidem se casar. Ela diz à Balthazar: “Vou amá-lo”.

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De repente vemos Marie ir a uma casa abandonada como se fosse enfrentar alguém. Lá, ela não encontra ninguém. Corta. Vemos dois rapazes saindo correndo da casa jogando as roupas de Marie para o alto. Jacques e o pai de Marie vão e buscam ela desnuda na casa… Marie decide fugir e nunca mais voltar.
Marie foge e nunca mais vai voltar.

Um padre vai ver o pai de Marie, prostrado em uma cama, deprimido e doente. Lê uma passagem da Bíblia para ele. Vemos a Mãe pedindo a Deus que não o leve… Corta – O pai está morto.
O tempo passa… Vemos Gérard com amigos entrarem na fazenda para roubar Balthazar. A mãe aparece e fala que Não. Porque ele é tudo o que ela tem… e diz: “Ele é um santo”. Corta – vemos uma procissão religiosa com Balthazar carregando uma relíquia… Nessa noite Gérard rouba Balthazar e o usa como uma mula de carga para atravessar a fronteira. Batem nele até ele subir a montanha… Na fronteira a polícia atira contra eles. Eles fogem e Balthazar é atingido… Ficamos com Balthazar até ele deitar no meio de um rebanho de ovelhas… E morrer. As ovelhas se vão e o filme termina.

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Não preciso e nem quero entrar no mérito de direção e realização: é uma obra prima. Bresson é genial.

O aspecto óbvio do filme é que é um animal que acompanha certos emaranhados de tramas humanas. Terminando em um nada, em um objeto para uma ação imoral, jogado fora e deixado para morrer. Uma coisa que, como mostra o filme, acontece muito com as coisas que o homem toca…

É uma trama cheia de eventos. De idas e vindas. De movimentos e estáticas… Por isso sua força. Nos puxa de um lado pro outro, abrindo nossos sentidos e ampliando as sensações de tal forma que quase nos arrebenta… É uma tensão interna enorme – vivida indiretamente por Balthazar e nós, os espectadores.

Esse filme é muito misterioso… Um burro chamado Balthazar, batizado na igreja católica, que é encontrado e logo cuidado pela família de Marie. Logo, ele cresce às duras provações, dignas de um santo cristão. Como alguns contos cristãos, ele passa por diferentes mãos… sempre por intervenções aparentemente Deus ex-machina.

Paralelamente acompanhamos o crescimento de Marie, seu desabrochar em uma mulher e seu relacionamento com Gérard. É engraçado que Gérard é jovem, Arnold um adulto em seus 35-40 e o senhor do final um tanto mais velho… E todos tiveram Balthazar em suas mãos. Me parece que esses 3 homens são diferentes aspectos de algo maior. Do homem, talvez.

 

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A maldade piora a cada nível… junto com sua raiva à natureza (à Balthazar). Mas contendo ainda um pingo de decência. De esperança. Ao passo que Marie é sempre igual… Apesar de ter passado por experiências diferentes. Seu amadurecimento é contido em si mesma. Ela é mais conectada à Balthazar, e assim, à Natureza. Já o homem não. Tem apenas uma ligação às coisas do mundo. Seu amadurecimento, refletido nos 3 personagens, mostra exatamente isso. Culminando no senhor do final, acumulando riquezas e não ligando para nada além disso. Por outro lado, Jacques e o pai de Marie são tipos diferentes de homens. São homens que Marie não quer contato. Homens, como disse acima, como Jacques no final, que não mudam. Seu pai com seu orgulho e Jacques com sua inocência. Já os outros… sempre demonstram dinâmica e dualidade interna.

Não sei. Não consigo terminar em paz essa resenha. Esse filme me deixou com muitas pulgas atrás da orelha…

Para um próximo filme do Bresson me dedicarei mais e me darei mais tempo… porém, para este, mesmo que insatisfeito, posto porque é o que me propus a fazer.

By | 2017-01-13T21:56:11+00:00 February 6th, 2015|Resenhas|1 Comment

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One Comment

  1. Loic Francois Marie February 6, 2015 at 5:06 pm - Reply

    “Ron Ron” in da house, rocking roll my friend, great sum up and reflexions

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